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segunda-feira, maio 04, 2009




SETE

Para compreender melhor cada um deles eu tirei o significado de dicionários e fiz minha simples e humilde complementação.


Inveja:

“Inveja é o desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Um desejo violento de possuir o bem alheio”. Já o Dicionário de Psicologia Dorsch esclarece: “A inveja pertence aos sentimentos intencionais. É uma insatisfação, o aborrecimento com a alegria do outro”. Portanto, aquilo que é invejável é encarado como algo de muito valor.

Acho muito feio sentir inveja e sinto a kilômetros quando sou objeto dela. Já senti... como todo mundo, mas prefiro pensar que cada pessoa tem suas particularidades e faço um exercício de valorizar a cada dia o que tenho, em vez de invejar o que o outro tem que eu não tenho.

Gula: "apego excessivo a boas iguarias", ou ainda "excesso na comida e na bebida".

Tento me controlar pra não engordar, mas adooooooro! Acho que depois de sexo a melhor coisa da vida é comer.
E comer depois do sexo propriamente dito também é ótimo, hehehe...

Luxúria: apego aos prazeres carnais. Também podendo ser: corrupção de costumes; sexualidade extrema, lascívia, sensualidade.

Então, me consideram e me considero uma mulher beeeem sexualizada. Se não der pra fazer eu falo muito sobre o assunto pra desopilar, hehehe...Achei um pouco moralista essa definição aí em cima. "Corrupção de costumes" é o catzo. Eu prezo e fidelidade mas ao mesmo tempo acho uma futilidade imbecil. Podia todo mundo poder pegar todo mundo na boa ( sem neuras e de camisinha, claro) e quem sabe o mundo seria mais calmo. No fundo acho que a gente mais se ilude e que a maioria das fantasias são alimentadas pelo fantasma do "não pode". Se você pensar que pode aí você olha melhor pra cara do sujeito e pensa: humm...pensando bem... prefiro meu namorado...

Ira:

Segundo o dicionário Aurélio, ira é cólera, raiva, indignação, desejo de vingança. É preciso distinguir entre a ira ou cólera; e raiva ou ódio. O ódio e a raiva, de certa forma, são a ira reprimida. São emoções totalmente destrutivas tanto para os que as sentem como para quem se torna objeto delas. A ira é um impulso momentâneo, que provoca também os maus pensamentos, fazendo com que muitas vezes façamos acusações injustas, provocando muitas brigas e conflitos nas relações.

Acho que não pratico não...temho aprendido que devemos ficar irados com o que merece e não por qualquer coisa. Acho que frequentemente fico irritada, mas creio que é um estado muito mais brando do que a ira.

Soberba:

Pode ser associada à luxúria, altivez e apresenta um certo nível de presunção exagerada para com bens materiais. Frequentemente um indivíduo com essas tendências também apresenta vaidade e arrogância, juntamente com orgulho demasiado pelas próprias capacidades e eventuais realizações, sempre associadas aos bens tangíveis, ao luxo. Soberba é a tendência de um indivíduo para um modo de vida caracterizado por grandes despesas supérfluas e pelo gosto da ostentação e do prazer.

Acho que essa palavra me soa mal mas lembra algo bom: sorvete! :) Confesso que nunca compreendi muito bem o que é soberba, mas acho que é a supervalorização de si mesmo por motivos fúteis ou algo assim, como diz no dicionário. Não me reconheço nessa.

Preguiça:
O dicionário Aurélio define a preguiça como “aversão ao trabalho; negligência, indolência”. Já o velho testamento a apresenta como um dos sete pecados capitais caracterizado pela “pessoa que vive em estado de falta de capricho, de esmero, de empenho, em negligência, desleixo, morosidade, lentidão e moleza, de causa orgânica ou psíquica, que a leva à inatividade acentuada”.


Eu sofro dela mas eu gosto, me atrapalha e me dá prazer. Quando é dia de folga é muito bom, quando preciso trabalhar me sinto um tiquinho culpada mas penso logo que todo mundo sente um pouco nos dias de trabalho. Como eu adoro meu trabalho a preguiça dura pouco e dá um eventual prazerzinho de sentir.


Avareza:


A mesquinhez é sinônimo de avareza. A avareza em si consiste na retenção intensa daquilo que possuímos para não dividir com os outros...Pode ser um bem material, ou não, como no caso de pessoas que se negam a dar qualquer tipo de contribuição, ainda que afetiva para as outras pessoas. É justificável do ponto de vista comportamental, pois a história de vida da pessoa possuirá traços que indiquem e até expliquem a origem da mesquinhez desta ou daquela pessoa.

Acho avareza um traço horrível. Quando fico amiga de alguém e noto que o sujeito é mesquinho tenho enorme dificuldade de lidar com isso porque não sou assim. Ainda mais com dinheiro. Jamais de la vie poderia por exemplor namorar um homem ávaro, que divide centavos ou escolhe café puro porque o capuccino que ele gosta é mais caro, credoooooooo! Nunca namorei ninguém assim mas já vi por aí. Aff!


Danika Faxina! Espero que você curta meus 7 pecados! Beijo pra vc!

terça-feira, abril 07, 2009

Think or feel, feel or think
Think or feel, feel or think by Julia Porto love on Polyvore.com


Sense and sensibility

ou
Razão versus Paixão (do radical pathos)
ou
I don't think, I feel
ou
I don't feel, I think
ou ainda
I let myself think more than feel






AFF!!!!!! Dei vários títulos ao texto a seguir porque um só não traduz minha múltipla questão existencial da última madrugada insone. Outro dia uma amiga muito querida me disse que tenho enorme potencial pra crescer na vida e que só não cresço mais porque minha ansiedade me atrapalha. Na hora eu ouvi e concordei. Sim, sou muito ansiosa. Acabo querendo rapidamente tirar conclusões sobre as coisas e me confundo. A ansiedade acaba me sabotando porque sempre tenho a ilusão que se chegar o mais rápido possível à conclusão de como me sinto com relação aos temas da vida, à idéias e às situações, vou me sentir mais calma e menos angustiada.

Só que depois desse toque da minha amiga eu passei a pensar que a tal "calma" da conclusão, o tal apaziguamento da angústia é ilusório e me impede de ter reflexões mais avançadas. Interrompo meus próprios fluxos e a forma como eu penso o mundo e como me sinto fica reduzida e perco parte do meu potencial. A conclusão de querer tanta conclusão é que no fim das contas acabo nem sabendo direito de que forma eu realmente me sinto com relação a um objeto qualquer. Tudo acarretado pelo monstro da ansiedade que habita o meu ser.

FFFFOUND!


Fiquei matutando a madrugada toda sobre o pensar e o sentir. Acho que me tornei artista, atriz, cantora... porque tem algo que não sei explicar que trasnborda em mim. E é esse "não sei o quê" de sensilbilidade em alta voltagem que me faz ser mais sentimento que razão. Se deixar minha natureza me levar eu sinto muito mais do que penso. Ah, mas se eu deixasse o "sentir" fluir mais do que o "pensar", o primeiro me engoliria. Então acabo indo pro outro extremo, da racionalização hardcore pra me proteger, pra me defender de ser assolada por mim mesma.

A própria rotina de um cantor-ator de musical já é diferente. Não tem horário civil, a organização do dia é outra. E com isso a organização mental também muda. Aliás, um parentesis, isso me alivia muito. Durante alguns anos eu acordei cedo pra trabalhar e pensava até quando aguentaria o martírio, pensava que tinha algo errado comigo porque era extremamente infeliz de acordar às 7 da matina. Me sentia fracassada de alguma forma.

THINKER
THINKER by hello_hello~ on Polyvore.com


Hoje estou me sentindo ótima acordando mais tarde, mas ainda sim a rotina física e mental de um artista é diferente. Se eu não racionalizar minimamente meu dia e o que eu sinto ao longo dele, eu posso facilmente me perder, me equivocar com meu próprio sentimento, achar que estou levemente deprimida ou ver problemas onde eles não existem. Isso pra mim de certa forma seria me deixar levar só pelo sentimento.

Quando eu penso sobre as coisas eu me sinto mais segura. E esse é um vício que minha boa análise me traz e me trouxe ao longo do tempo. Não é ficar neurótica analisando tudo não. Mas é me manter centrada, ter um foco, pensar nos objetivos da vez. Pensar em ser feliz naquele momento presente.

Como estou morando sozinha eu tenho que fazer muitas vezes o exercício de me preencher de mim mesma. Está sendo um enriquecimento pessoal e tanto.



Ainda sim tenho pensado em buscar o equilíbrio entre o sentir e o pensar. Tenho pensado em me dar mais tempo, um tempo interno de ouvir como me sinto, antes de pensar. Não sei se um caminho pode ser a meditação. Tenho uma intuição de que tentar sentir mais e pensar menos pode ser um caminho incrível para um crescimento pessoal e também pra um crescimento como atriz e cantora.

Afinal o "sentir" é a matéria prima, o filé mingnon, de um bom artista, qual seja sua especialidade.



Escrevam o que vocês blogueiras e blogueiros pensam ou sentem sobre sentir e pensar ;)))

beijos

Julia :)

segunda-feira, abril 06, 2009

CRESÇA E DIVIRTA-SE

Texto da escritora Martha Medeiros sobre seu livro "Divã" que deu origem à uma peça e ao filme estrelado pela atriz Lília Cabral


Growing up
Growing up by Julia Porto love on Polyvore.com



Tenho viajado pra lá e pra cá acompanhando algumas pré-estreias do filme Divã, baseado no meu livro homônimo. Delícia de tarefa, ainda mais quando a gente gosta de verdade do trabalho realizado, e esse filme realmente ficou enxuto, delicado e emocionante. Além disso, ainda consegue me provocar. A personagem Mercedes (vivida pela incrível Lilia Cabral) está fazendo análise e leva pro consultório muitos questionamentos sobre sua vida. Até que, passado um tempo, finalmente relaxa e se dá conta de que não há outra saída a não ser conviver com suas irrealizações. Diante disso, o analista sugere alta, no que ela rebate: “Alta? Logo agora que estou me divertindo?”

Eu tinha esquecido dessa parte do livro, e quando vi no filme, me pareceu tão cristalino: um dos sintomas do amadurecimento é justamente o resgate da nossa jovialidade, só que não a jovialidade do corpo, que isso só se consegue até certo ponto, mas a jovialidade do espírito, tão mais prioritária. Você é adulto mesmo? Então pare de reclamar, pare de buscar o impossível, pare de exigir perfeição de si mesmo, pare de querer encontrar lógica pra tudo, pare de contabilizar prós e contras, pare de julgar os outros, pare de tentar manter sua vida sob rígido controle. Simplesmente, divirta-se.

Não que seja fácil. Enquanto um corpo sarado se obtém com exercício, musculação, dieta e discernimento quanto aos hábitos cotidianos, a leveza de espírito requer justamente o contrário: a liberação das correntes. A aventura do não-domínio. Permitir-se o erro. Não se sacrificar em demasia, já que estamos todos caminhando rumo a um mesmo destino, que não é nada espetacular. É preciso perceber a hora de tirar o pé do acelerador, afinal, quem quer cruzar a linha de chegada? Mil vezes curtir a travessia.

Dia desses recebi o e-mail de uma mulher revoltada, baixo astral, carente de frescor, e fiquei imaginando como deve ser difícil viver sem abstração e sem ver graça na vida, enclausurada na dor. Ela não estava me xingando pessoalmente, e sim manifestando sua contrariedade em relação ao universo, apenas isso: odiava o mundo. Não a conheço, pode sofrer de depressão, ter um problema sério, sei lá. Mas há pessoas que apresentam quadro depressivo e ainda assim não perdem o humor nem que queiram: tiveram a sorte de nascer com esse refinado instinto de sobrevivência.

Dores, cada um tem as suas. Mas o que nos faz cultivá-las por décadas? Creio que nos apegamos com desespero a elas por não ter o que colocar no lugar, caso a dor se vá. E então se fica ruminando, alimentando a própria “má sorte”, num processo de vitimização que chega ao nível do absurdo. Por que fazemos isso conosco?

Amadurecer talvez seja descobrir que sofrer algumas perdas é inevitável, mas que não precisamos nos agarrar à dor para justificar nossa existência.




Amei este texto da Martha Medeiros e sou fã da coluna dela na Revista O Globo!!!! Espero que vocês curtam!

beijos

Julia

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Outro dia fiquei pensando que o que normalmente as pessoas mais se incomodam com as outras é algo que está nelas mesmas. Algo que elas sentem mas rejeitam. Eu sou assim, você é, todos nós somos. Mas se as pessoas, de um modo geral se dessem conta disso com mais clareza a vida seria mais feliz, mais alegre, e certamente mais leve.

terça-feira, novembro 25, 2008

http://www.newsday.com/media/photo/2008-05/39106379.jpg


A BELEZA


Na edição especial da Revista Mente e Cérebro "Mente, cérebro e arte" é possível ler a matéria "O despertar da deusa" do filósofo Gábor Páal. Este título é estranho e faz parecer que a matéria é sobre auto-ajuda barata para mulheres com baixa auto-estima, mas não é. É sobre uma discussão interessante sobre o que acontece dentro de nós quando sentimos que algo é belo.
De forma rasa as pessoas só pensam na beleza ou feiúra estética e visual, principalmente do ser humano, da mulher mais especificamente. Mas a beleza e a feiúra transcendem anos luz o aspecto visual. A parte visual/estética existe, mas há muito mais que isso.

É a sensação de beleza quando uma amiga que você ama conta sobre sua vida amorosa e chora ao descrever suas dificuldades. É a beleza das palavras. É a beleza da lembrança de um cheiro. E tem a música!!!!!!! Tem o cinema! Tem a arte!!!!
Sabiam que uma sinfonia de Bach, uma trepada das boas e a contemplação do rosto de uma super modelo provocam a mesma sensação de prazer de que aquilo é belo, segundo pesquisa de psicólogos e neurocientistas? Uma boa conversa com uma amiga, a admiração que você tem sobre o modo inteligente como ela pensa, ou você mesma se sentir criativa, ter uma boa idéia, ler ou escrever um texto bacana, tudo isso provoca prazer pela sensação de que algo é belo.

Com a matéria da Mente e Cérebro também aprendi que não é à toa que o ser humano admira paisagens fluviais, tipo aquelas fotos de uma rede com o mar do Caribe ao fundo. É que ela nos remete inconscientemente a um lugar onde podemos ter água e comida.
Também achamos uma imagem bela quando há identificação. Não só quando nos espelhamos mas também quando há alguma ligação afetiva e emocional com determinado objeto.

Preciso frisar mais uma vez a beleza das relações. As relações de amizade verdadeiras, em que podemos ser inteiros e respeitar o outro em sua inteireza, em que podemos brilhar e admirar o brilho do outro sem picuinhas e competições pequenas. As amizades em que não precisamos ser mais que o outro por uma insegurança burra e mesquinha qualquer, são uma beleza. O amor das relações amorosas é belo também mas em geral é mais óbvio. Em outro momento abordarei a beleza do amor do meu ponto de vista não muito convencional.

Eu fico feliz de ter prazer com a beleza em muita coisa não óbvia, como o som de determinado tipo de salto alto quando pisamos no chão. Um "toc toc toc" que é lindo! O som das mãos da cozinheira apertando a carne cheia de temperos úmidos, uma conversa despretenciosa com uma velhinha desconhecida que você cruza na esquina do nada e ela diz mil coisas legais. Tudo isso é belo. A beleza está lá, está aqui, bem perto. Está do lado de fora e também, aqui dentro.


A feiúra


Mais do que um nariz pouco afilado, um dente torto, alguns quilos a mais ou uma cicatriz, um punhado de estrias, celulite e etc... existe um sem número de características que são muito feias e pouco consideradas. Acho por exemplo um tipo de insdiscrição muito feia. Normalmente pessoas curiosas demais cometem esse tipo de gafe, perguntar quanto você ganha, e mil detalhes que só dizem respeito à você. Julgar o outro é muito feio. Ser interesseiro, ser omisso, ser pobre de espírito é muito feio. Se alimentar de fofocas e cultivá-las é muito feio, é pobre, é um buraco tão fundo que precisa ser preenchido dessas coisinhas tolas.

Carência demais, insegurança, gente encrenqueira, falta de sinceridade, piti, fingir que não se importa quando você se importa, ser grosseiro, atacar o outro quando você é que está atacado consigo mesmo, falar demais, falar alto demais, tudo isso é muito feio. É muito mais feio do que um ser fisicamente feio, aliás, vale lembrar que esse critério é subjetivo. O que é feio pra mim pode não ser pra você e assim vice e versa


Julia (:


osb: Leiam o texto da Mente e Cérebro abaixo, é bem legal!



A beleza de sentir prazer com a beleza (ou o despertar da deusa, argh!)

Quem lida com criação deve entender como cognição e emoção estão unidas na experiência estética.

Todos concordam que a “fórmula” ideal para o desenvolvimento de um projeto de interface se faz com o equilíbrio entre conhecimento e estética. Além de aspectos como arquitetura da informação, usabilidade, navegabilidade e conteúdo consistente, importantíssimos nestes projetos, sabemos que a estética – o tratamento gráfico – desempenha um papel extremamente importante.

De fato, a questão sobre o que é ou não belo influencia diretamente muitos aspectos de nossa vida. Em seu livro O que é belo?, Gábor Paál tenta localizar este conceito em meio à estética e o conhecimento.

Enquanto os filósofos a relacionam principalmente com a arte e os psicólogos a vêem como pura sensação de prazer, para o leigo estética é pura questão de gosto.

A biologia evolutiva explica que os "ideais de beleza", pela vantagem seletiva que proporcionam, ficaram programados de algum modo em nosso patrimônio genético. É fato comprovado que as pessoas acham mais agradáveis regiões fluviais e lugares com vegetação verde e exuberante que desertos e montanhas escarpadas. Para nossos antepassados, viver naquelas áreas representava uma vantagem, pela facilidade de conseguir alimento e água e porque ofereciam defesa contra seus inimigos.

A psicologia experimental por sua vez deu origem também ao chamado campo da estética informacional. Pesquisadores demonstraram serem os padrões gráficos os que estimulam a capacidade investigativa do observador, isto é, aqueles capazes de despertar sua curiosidade.

Equilíbrio parece ser a palavra chave quando o assunto é estética. Figuras muito simples são monótonas; as muito complexas surgem como uma massa confusa que não desperta interesse. As figuras consideradas mais atraentes pela maioria das pessoas têm exatamente o nível de complexidade capaz de produzir no aparelho perceptivo estruturas de ordem superior, também chamadas de "supersignos".

Ou seja, um padrão dotado de beleza é caracterizado por um ótimo grau de densidade informacional.

Alexander Baumgarten, fundador da estética moderna, definiu a experiência estética como a forma "sensível" do conhecimento – em oposição à forma "racional-conceitual". Para ele o belo representaria o pólo oposto da razão.

Já Nelson Goodman, filósofo americano, em seu livro Languages of art, censurava essa separação estrita entre as esferas cognitiva e emocional afirmando que: "Colocamos, de um lado, impressões dos sentidos, percepções, deduções, hipóteses, fatos e verdade; de outro, prazer, dor, interesse, satisfação, reações emocionais, simpatia e aversão. Com isso tornamo-nos incapazes de perceber que as emoções funcionam cognitivamente na experiência estética".

Se a cognição e a emoção estão tão unidas, não faz sentido separá-las na experiência estética. Aquilo que nós consideramos belo não é sempre racional, embora a pura racionalidade possa ser muito bela. Mas uma coisa é certa, a eficiência e a elegância estão extremamente ligadas.

No entanto, apesar desta união entre emoção e cognição, existe uma diferença marcante: enquanto a alegria e o contentamento são sentimentos nebulosos, em parte inconscientes, de natureza visceral e não refletida, a experiência estética é mais consciente.

Podemos na maior parte das vezes identificar muito claramente o objeto que consideramos belo, algo que não ocorre com o sentimento de bem-estar, que percebemos de forma difusa.

Isso torna ainda mais difícil responder à questão sobre o significado do belo.

Apesar disto, vamos fazer uma tentativa. Vamos pensar em um objeto estético de qualquer espécie – uma interface, uma escultura, uma teoria científica, uma paisagem –apenas como um modelo formado por elementos individuais relacionados entre si.

A questão é: como deve estar arranjado esse modelo, como devemos percebê-lo, para julgá-lo belo?

Com este procedimento, praticamente todos os fenômenos de experiência estética descritos pela psicologia experimental podem ser classificados em quatro categorias:

1. Beleza do primeiro tipo.

Surge das relações dos elementos no interior de um modelo. Essas propriedades são a coerência, a simetria, o equilíbrio, a clareza, a simplicidade, a harmonia, a elegância, a unidade, a continuidade e – talvez o mais
importante – a adequação. Descrevem um certo tipo de ordem no interior de um modelo;

2. Beleza do segundo tipo.

Refere-se menos a um objeto e mais a uma relação pessoal entre o objeto e quem o contempla. Ou seja, ligação, familiaridade, confiança, empatia, ou a possibilidade de participar pessoalmente de algo. Pensamentos e objetos adquirem valor estético quando nos tocam pessoalmente, nos emocionam, quando refletem algo de nós, quando nos identificamos com eles de alguma forma, ou projetamos neles nossos pensamentos e emoções.


A beleza do segundo tipo está na base de fenômenos tão distintos como a simpatia, a sensação de pertencer a um lugar e também nossa predileção por teorias e idéias de acordo com nossa visão de mundo. Além disso, não é simplesmente a familiaridade que produz o valor estético, mas uma particular mistura do novo e do familiar;

3. Beleza do terceiro tipo.

Os critérios de beleza são estímulo, excitação, novidade, complexidade, mas também criatividade. É belo sentir-se criativo. A beleza não refere apenas a objetos, mas também a ações. Pode ser belo fazer novas descobertas, produzir arte, escrever livros, ou expressar as próprias idéias. A beleza dessas ações não depende tanto de o objeto produzido ter sido belo: a questão mais importante é se lidar com esse objeto foi uma experiência estimulante;


4. Estética elementar. Esta é a categoria que melhor corresponde à concepção da beleza como experiência sensorial e sensação de prazer. Nossa preferência por sons harmônicos, paisagens fluviais, rostos simétricos ou corpos bem moldados faz parte desta categoria. A característica central das teorias da estética elementar é que os objetos não possuem nenhum caráter simbólico adicional. Uma rosa, nesse aspecto, é realmente uma rosa, não um sinal de afeto, nem um símbolo romântico, nem uma metáfora para o florescimento e a decadência.

Estas quatro categorias nos ajudam a descrever as sensações estéticas em toda sua amplitude e, ao mesmo tempo em que nos fornecem uma nomenclatura para valores de beleza, deixam espaço para preferências individuais.

Este sistema de classificação dos valores estéticos tem também uma utilidade prática para todos os que lidam com a produção e divulgação de conhecimentos. Designers, artistas, jornalistas, publicitários, pedagogos ou cientistas podem e devem levar em conta os valores estéticos fundamentais, de forma consciente ou puramente intuitiva.

quarta-feira, outubro 08, 2008

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Essa pilha que não passa, essa insônia que não cessa... need to sleep...
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A Dor Das Coisas Que Passaram


Morro de saudade

De Adriano Silva para a revista Vida Simples

Eu me sinto examente como ele. Me angustia projetar agora a saudade que vou sentir amanhã... e tudo mais que ele escreveu nesse texto. Me identifiquei muito com a forma que o escritor se sente. Esse texto é lindo de morrer.

Leiam até o fim, por favor. Mesmo com um nó na garganta, mesmo com o coração na boca, mesmo com os olhos marejados ou até no pranto. Outro dia tive uma baita crise de choro no meio da leitura deste texto, inventei de ler pro meu namorado e desabei. Ainda assim é lindo, duro e real.

Beijos Julia Porto

por favor leiam

Às vezes sinto nostalgia do que estou vivendo. Projeto agora a saudade que vou sentir amanhã. Sou nostálgico desde que me lembro. Tenho esse hábito de cultuar o passado há muito tempo. Com 9 anos chorei de saudade do ano em que tinha 7. Foi minha primeira crise de nostalgia. Percebo somente agora, enquanto escrevo, que o objeto daquela saudade precoce coincide com o último ano em que meus pais viveram sob o mesmo teto. Não me lembro de aquela saudade ter sido especificamente de ver meus pais juntos ou de enxergar a gente como uma família tradicional. Mas vai saber.

Desde aquela época é assim: tudo o que passa me dói muito. Uma dor funda, cálida, quase gostosa de sentir. Minha saudade não emerge apenas dos momentos bons. Qualquer passagem que tenha marcado minha trajetória, e que viva em mim como lembrança, tem o potencial de gerar um sofrimento nostálgico.

A dor da saudade é um evento físico. Um sofrimento pontiagudo que arrocha o peito, fecha a garganta, impõe uma bruta vontade de chorar sozinho. A saudade traz em si um escárnio: não há remédio para ela. E lamentar não adianta: não é possível voltar no tempo. A saudade é um desejo que, quanto mais fundo, mais impossível é de realizar. É um jeito que o tempo tem de nos dizer que ele é uma via de mão única e que as perdas que são irreversíveis.

Às vezes sinto nostalgia do que estou vivendo hoje. Projeto a saudade que vou sentir amanhã do que está acontecendo agora. E já começo a sofrer. Minha capacidade melancólica chega a esse ponto. Ao menos, ela me impele a tentar viver ao máximo o presente. Porque a pior saudade é a daquelas coisas que você não viveu. A pior nostalgia é a daquelas coisas que você não fez. Aí o sentimento de impotência cresce, a sensação de que não é possível voltar fica mais insuportável. Ainda assim, já passou pela minha cabeça a seguinte questão: não será melhor viver menos intensamente, como estratégia para ter menos coisas do que sentir saudade no futuro?

Mas a saudade não é exatamente um desejo de voltar. A nostalgia não é a contrapartida de uma sensação de que a vida era melhor antes. A saudade, portanto, não é uma tentativa de instaurar o passado em detrimento do presente. A nostalgia é, antes, um jeito de tentar se agarrar em alguma coisa que suavize a queda livre.
Minha saudade é diáspora. São os amigos fundamentais que você teve um dia, que você amou tanto, e que hoje nem sabe por onde andam, o que fazem, quem são. E que você nunca mais verá. Saudade é esse sentimento cortante de perda, de desagregação, de desconexão, de amputação das coisas que lhe são mais caras.

Saudade é o irmão que você amava e que se foi para nunca mais voltar. É a memória do seu pai ficando a cada dia mais distante, mais difusa, menos real. Saudade é o desejo de poder abraçar de novo sua avó, e lhe dar um beijo e sentir outra vez a maciez dos seus cabelos. Saudade é a dor sem chance de solução de todas essas impossibilidades.

Minha saudade é também o desejo, igualmente irrealizável, de voltar a ser aquele menino que via o mundo com doçura e cor, ao lado do irmão, em cima do colo da avó, de mãos dadas com o pai. Saudade não é só a falta dos outros. É a falta da gente mesmo, do que fomos, dos grandes momentos por que passamos. É o vazio deixado por um tempo que não existe mais, quando várias portas que se fecharam com o passar dos anos ainda estavam abertas.

Minha saudade também tem um pouco de covardia. Porque o amor ao passado é o amor a um tempo dominado, conhecido. Enquanto o presente implica riscos, desafios e exige esforço, e o futuro é um espaço disforme com tudo por construir, o passado é um refúgio sereno e controlado. Especialmente porque a memória edulcora tudo. Mesmo as lembranças que não são tão boas ganham, com o tempo, um belo incremento de sabor e harmonia. O que os nostálgicos cultuam são geralmente visões idealizadas do que passou.

Minha saudade é vertigem, é mudança. É perceber que não é possível congelar nenhum momento no tempo. Tudo está passando. Eu, você, nossos pais, nossos filhos. Saudade é tentar trancafiar perto da gente aquilo que amamos, é tentar interromper os fluxos para eternizar numa fotografia aquilo que nos faz falta. Saudade é essa vontade de estar junto, de ficar junto, de ficar mais, de parar o tempo para que a gente não precise se separar nunca.

Minha saudade é uma reação desesperada a esse fluxo inexorável em direção ao esquecimento. À medida que a gente avança na vida, vai deixando um rastro de emoções para trás. São as marcas que deixamos pelo caminho - e que o tempo se ocupa de apagar. Há situações fundamentais, que definiram quem eu sou hoje, que já não têm condições de acontecer, de se repetir. O apego ao passado é também o desejo de continuar vivo, de estender a vida, de não deixá-la correr tão impunemente para o fim. É um jeito de dizer: "pára, dá meia-volta, eu quero descer, ficar um pouco mais, voltar atrás, viver de novo".

Esse é o desespero, para os nostálgicos. Cada recordação querida surge, gera uma faísca, dura um átimo e vai embora para sempre. E cada uma dessas perdas nos lembra que é exatamente isso o que está acontecendo conosco. E a angústia que você sente diante dessas lembranças será tão particular que você não conseguirá dividi-la com ninguém. A saudade será sempre uma dor confinada dentro de você. Um sofrimento pessoal e intransferível. Que a gente carrega como sina.

Adriano Silva é escritor, jornalista e autor do romance Homem sem Nome.

terça-feira, setembro 30, 2008



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A RAIVA


A raiva é um sentimento maldito. Todo mundo diz que sentir raiva não é bom, que é um sentimento feio e negativo e que não faz bem. Outro dia eu estava pensando nisso e pensei: "por que marginalizar a raiva?????" É um sentimento como os outros. Entendo que não deve ser cultivado, mas uma coisa é não cultivar, outra coisa totalmente diferente e negativa é encobrir, sufocar, ignorar e negar um sentimento que é humano. Talvez até mais genuíno do que os outros por sua característica intensa e irracional.

Eu, que sou uma pessoa de sentir raivinhas aqui e ali, fico muito enraivecida com essa coisa de que ninguém assume que tem raiva (mentira porque todo mundo sente). E nos dias de hoje não se pode mais sentir raiva. Todo mundo deve fazer ioga, ser feliz o tempo todo e tomar suco de luz. Vão pra puta que os pariu.

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A raiva em si não é mesmo um sentimento nobre ou bonito. Mas você não é feio porque sente raiva, a raiva é que pode até ser feia porque é um descontrole, um sentimento de paixão (pathos) desmedida.


Mas o fato é que mais ou menos feia, ela está lá. Minha sensação é que ela pulsa na nossa sociedade, de forma encoberta, meio na sombra das coisas, e que é um bomba relógio.

Minha parte eu faço liberando da maneira possível a raiva que sinto com as injustiças, com a raiva que tenho com a raiva alheia, com o que não sai da forma que planejei. Tento sempre que a minha raiva roçe ao menos suas mãos nas mãos da paciência, que é tranquila e segura e joga sempre na cara da raiva uma nuvem de algoção doce de segurança, sempre em silêncio, claro.

O silêncio comunica muito. Pra mim é a língua dos sábios. Eu não sou sábia e estou ok com isso, mas admiro muito. Tenho ensaiado silêncios e isso poupa muita energia gasta em vão.

Pra mim a raiva é o sentimento mais intenso de todos. Não estou defendendo que é um sentimento bom de sentir, mas é fato que se o dono da raiva tiver alguma inteligência de ao menos percebê-la com clareza, ele pode transformá-la em algo construtivo, que some.
A energia dá raiva pode movimentar a vida da gente para o bem, basta aprender a canalizá-la.

Já quase comprei um saco de box pra socar minha raiva nele. Mas desisti, é muito bruto e feio. Só quero se for rosa, ridiculamente rosa e infantil pra segurar a onda dos socos do meu ódio vermelho. Me irrita eu gostar de rosa mas eu gosto e foda-se.


Minha mãe diz que sou raivosa, acho que sou mesmo. Meu namorado também acha...

Só não é bacana jogar a raiva no amiguinho, ou então, se você não resistir, peça logo desculpas pra ele.

[raiva.jpg]


Falar demais de si agredindo os outros é jogar sua raiva no amigo, isso é feio, é mais feio revelar sua raivas pro amigo de forma agressiva do que a raiva em si.

Minha última sessão de análise foi resumida pela minha analista da seguinte forma:

"Você disse várias vezes "TÔ PUTA", "FIQUEI PUTA" "ME DEIXA PUTA"".

Ok, eu estava puta com várias questões, situações e pinimbas.


RAIVA E TESÃO

Raiva em sua milésima potência é tesão. Não tem jeito. É muito revelador isso que estou dizendo, mas dane-se. Foda-se. Sou raivosa mesmo. Sou linda e sou raivosa. Meu namorado tem tesão nas minhas raivinhas e ele lida muito bem com elas.

GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Caralhoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A raiva é obviamente vermelha, não tem jeito.


terça-feira, setembro 23, 2008

SEM LIMITE

Critíca-se por aí a falta de limite das crianças. Reclama-se dos adolescentes criados sem limites. Nem adultos escapam da exigência geral. Impõe-se leis rígidas contra o consumo de álcool, fecham-se as casas de jogo, grita-se contra as drogas. Um submundo de tensões mais clandetinas aqui, menos ali, atrapalha a expectativa de um mundo ordenado. Tudo que se diz contra os excessos é em nome do limite.


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De tanto exigir limites no cotidiano, ficamos surdos para nossos próprios gritos. Onde foi parar o bom senso? Quem pensa no porquê de tantas imposições? A rigidez das atitudes é a resposta fácil no desespero. O desepero é o descaminho que se explica pela falta de limites, e pela tentativa de criá-los, a cada vez, pela força. É o limite que ficou sem limite. A excessivsa proibição nos torna incompetentes para a vida.


ONDE ESTÃO?

Para muitos basta dar limites para uma boa educação. Como se a experiência do limite sozinha pudesse ser a salvação para alguém que se perdeu. Um não dito em tom solene aqui, aqui ou colá, e estaria feita mágica. Sabemos que não funciona assim. Professores contam com soluções vindas de casa. Pais desatentos ou ocupados esperam que os limites sejam produzidos na escola como se isso fosse tarefa da educação formal. A tarefa de dar limite é uma das tantas que esperamos dos outros. Todos sabemos que ela dá muito trabalho. Muitas vezes nem sabemos, os responsáveis, do que se trata. Mas, no fundo, talvez a preguiça de agir demonstre mais que cansaço ou descaso.
Talvez não confiemos na possibilidade de que um limite seja a resposta para nossos problemas, na educação, nos relacionamentos, pois nós mesmos não nos damos limites. Somos auto-indulgentes, autopiedosos, sempre prontos a perdoar as nossas falhas. A revolta contra as leis é um claro sinal de que não vemos vantagens dos limites para nós mesmos. A culpa-e o problema -costuma ser dos outros.


SINÔNIMO DE FORMA


Aristóteles dizia qua uqalquer coisa não existe para além do limite. Tudo que existe precisava de um limite para existir. Para saber o que algo é e onde está, usa-se a noção do limite. Limite é sinônimo de forma. Não podemos aber o que é uma casa senão reconhecemos seus limites concretos, que são, afinal, formais. Até a beleza era entendida como uma espécie de limite. Toda a nossa maneira de ver o mundo depende desse conceito.


Em termos éticos, os antigos entendiam o limite como autodomínio, capacidade de controlar as próprias paixões (mais tarde chamadas de pecado), de viver no meio-termo. Qualquer ação depende de limites no espaço e no tempo.

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O RESPEITO

Todo limite é uma experiência que se formula na relação com o outro. Entre mim e o outro há sempre um espaço imponderável. Nesse vazio entre "eu e tu", a melhor coisa a ser colocada é o respeito. Se o limite é a experiênci que permite saber até onde se pode chegar e, com sorte, a protetora dor de saber aonde não se deve ir. o respeito é única de todas as experiências que não pode ter limite. Porque respeito é o modo de olhar para o outro de modo positivo, ver nele sua potência de ser, como alguém que, mesmo me sendo próximo, carrega em si algo que não pode dizer sobre si mesmo para mim, e, por isso mesmo, será sempre intocável.





A total ausência de respeito pelo outro é o que caracteriza a figura do perverso. O perverso é aquele que por algum motivo, rompeu com o limite. Ele vive da crença de que é capaz de submeter o outro. No entanto, mesmo quando destrói o outro, não deixa de enganar a si mesmo. Ele vive da crença de que tomou posse de sua vítima, mas é apenas uma crença. A crença é sustentável apenas enquanto a vítima sustenta a posição do perverso. Em momento algum, no entanto, ele atingirá, o âmago da outra pessoa.

O perverso é um eterno logrado. Um frustrado que ilude o outro pelo medo. Quem se deixa levar é tamb´me iludido. E frustrado porque é impossível atingir o fundo irreconhecível de cada pessoa. Aquilo que justifica que somos seres humanos e que podemos sempre chamar de dignidade. Só esse olhar pode aniquilar uma olhar e uma atitude perversa. Limite é, no fundo, o lugar inatingível de cada um.


Márcia Tiburi, filósofa, escritora e artista plástica.

segunda-feira, setembro 22, 2008

O DEFINITIVO

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Tenho medo do que é definitivo. Um bom exemplo é que quero me casar mas não sei se quero pra sempre. E isso não tem a ver com gostar menos do pretendente em questão, na verdade é medo do desconhecido. A vida muda, e eu não sei como é dividir uma casa com meu namorado. Não sei se gosto disso ou se não gosto. Mas incomoda esse "não sei".

Continuando minha filosofia interna: como posso saber se vou querer estar morando com alguém pra sempre? Estar com alguém pra sempre, ao longo da vida, me parece bem bom. Mas assim... usando o mesmo banheiro e acordando todos os dias...??? Não sei (carinha de dúvida) ...

Eu sei que quero me emancipar mas essa questão vem sempre acompanhada da pergunta "casar ou não casar". Sim, eu me adianto muito no tempo, meu namorado nem se esquenta e nem pensa nisso. É um pouco mais novo e está em outro momento. Mas como penso em sair da casa de meus pais eu penso nisso sempre com uma espécie de settinha apontando pra essa parte- se vou morar junto com o boy ou não, se vou casar com pompa e circunstância ou se
seremos um casal moderninho que cada um mora na sua. Não descarto. Acho que vale o molde que for desde que estejamos felizes. O fato é que tenho medo que aquelas pequenezas, de contas, pia com louça, banheiro com roupa no chão, acabem por minar meu romance.

Mas está no inconsciente coletivo feminino essa questão "casar ou não casar" muito mais do que to be or not be. Dessa do Shakespeare eu já passei porque já tenho uma boa definição pessoal de quem sou, dos meus princípios, e de como me sinto, que é relativamente estável, de modo que já fico tranquila de saber quem eu sou e isso leva à uma outra setinha para o que eu quero. Isso não tira meu sono. Deixa eu explicar, sei o suficiente sobre mim para uma mulher de 30 anos, mas tenho lá meu receios. Você deve estar pensando: "nem se esquenta, se ele ainda não pensa nisso.." Mais eu penso uai!

Me pego pensando que situações muito definitivas me incomodam. Acho que o que deve haver de mais defnitivo na vida de uma mulher é um filho. E esse capítulo também está em aberto em minha vida, embora eu já saiba que se isso se der vai ser daqui a uns dez anos, porque a conquista de minha estabilidade profissional e financeira está na frente.

Acho que o fator "filho" é mais definitivo mesmo. Casamento tem esse peso mas todo mundo sabe que se não tá feliz... separa...

E filho é definitivo desde a hora em nasce, porque com ele nasce em você uma mãe que nunca existiu e a partir dali você será mãe pra sempre, nasce também um pai, avós, tios.

O casamento, não é possível decretar que será definitivo. É que nem o homem da vida da gente. Você não determina que ele é ou não. Claro que as mulheres têm parâmetros diferentes do como se relaciona com ela e como vai ser o homem da vida. Pra mim aquelas paixões arrabatadoras são o de menos. Em geral nos tiram do prumo e nos fazem sofrer.

Acho que o homem da vida vai aos poucos ocupando o lugar de "o homem da vida". Ele simplesmente está lá sempre com você e você o ama, sente prazer, se sente cuidada e acolhida.
O homem da vida também compartilha e vibra com suas escolhas. Bate palmas pra você e compreende quem você é e ama quem você é. O meu homem da vida ajuda e se responsabiliza por seus compromissos com você e com a própria vida. O homem da vida ou ganha dinheiro ou corre atrás de ganhar, pra vida se definir mesmo que não seja definitiva.

Tenho medo do que é definitivo... Ao escolher a figura pra ilustrar o texto eu escolhi essa caveira colorida, eu não sabia o que ela significava, mas fui procurar. Ela é um símbolo que representa o dia dos mortos na Espanha. Eu fiquei quebrando a cabeça pra pensar em coisas definitivas e s[oe veio "filhos" e "tatuagem".

Mas ainda mais definitiva que tudo é a morte e talvez por isso eu tenha demorado a pensar nessa parte. Falo melhor disso em outro momento.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A imagem “http://unix.wmonline.com.br/fireworks/artigos/matrix/esquema_33.jpg” contém erros e não pode ser exibida.


BÓCIO CRIATIVO


Hoje acordei acometida de "bócio criativo". Primeira informação relevante: eu tenho um *bócio. Ele está mais presente do que nunca desde que descobri em uma visita ao meu médico que ele existe e que pode estar ligeiramente aumentado devido a um desequilíbrio na tireóide. E olha que não tenho nenhum papo, nem papada, nem um aumento visível (esqueçam a foto bizarra do link porque aquele é um caso crônico limítrofe).

Meu papo verdadeiro é interno, um papo sério que eu travo comigo, internamente. Isso ocorre quando tenho surtos criativos... é divertido mas um pouco desesperador porque meu pensamento me arrebata em forma de palavras. É bonito. Meu pensamento desceu (ele desce que nem menstruação) high-tech, a sensação é de que as palavras caem como num mundo de Matrix, em uma espécie de download: as palavras caem de forma veloz, verdes, se encaixando, com aquele som digital. E mesmo em um dia como hoje, de folga, com essa chuvinha fina lá fora, eu podendo dormir até tarde sem culpa, meu criativo bócio me empurrou rumo ao computador às 9h! :0

Minha saga criativa desta segunda começou já na cama. Juro que tentei dormir e deixar pra lá, mas não deu. O escritor e sociólogo italiano Domenico De Masi definiu o momento em que precisamos ficar sem fazer nada (literalmente nada) pra vida fervilhar dentro da cabeça, produzir idéias, novos pensamentos e projetos de "ócio criativo". Esses termos prontos e embalados que a sociedade se apropria e ficam todos repetindo como uns perroquets (se pronuncia pêrroquê, é papagaio em francês) me irritam.

E como não consigo parar de pensar na palavra "bócio", hoje meu ócio criativo é bócio e pronto.

É algo mais forte que eu. Nesse turbilhão pensei mil coisas. Que quero fazer cursos de interpretação pra me aperfeiçoar e inevitavelmente pensei nas possibilidades que meu corpo me oferece, como atriz.

Então lembrei da entrevista maravilhosa da Cássia Kiss na Marília Gabriela ontem, tirando as palavras de minha boca, dizendo que ela precisa cuidar do corpo porque uma atriz obesa só faz o papel de obesa. E ela tá certa. Ela até citou a atriz do Zorra Total, não desmerecendo, mas admitindo que para uma atriz o fator peso prende mesmo. E eu sinto na pele que prende. Porque a maioria dos testes rejeita quem está fora do padrão.

Então tá. Todo mundo já sabe que eu quero e sinto uma necessidade intrinsínseca de emagrecer. E minha força de vontade há de me proporcionar um corpo que me permita trabalhar mais, ter mais papéis, mais satisfação profissional e consequentemente mais conforto pessoal, dinheiro, colares, vestidos, viagens, e poder ir a São Paulo uma vez por mês visitar a Vinte e cinco de março pra comprar bijoux incríveis pro meu acervo.

Enquanto penso em meu controle alimentar e o quanto é fundamental fazer exercício numa academia, a chuva cai lá fora, ainda mais fininha e mais fria me confirmando que exercícios ao ar livre não vão funcionar por conta do fator meteorológico.

Também pensei que preciso reunir tudo que já fiz como atriz na vida para tirar meu registro profissional. Pensei que quero aprender a mexer no photoshop pra botar em prática meu talento de designer e tive várias idéias de curtas para fazer como atriz, jogar no youtube e divulgar meu trabalho. Mas pra eu sair da toca interna, pra fazer tudo isso de forma feliz, essa chuva precisa passar. Como hoje vai ficar difícil de arregaçar as mangas estou de bloquinho em punho anotando minhas idéias, meus anseios, as prioridades... Enquanto a chuva não passa eu assumo que adoro ficar admirando a água caindo do céu. No dia da folga eu me permito este bócio poético. Ver a chuva da janela é bonito demais.

sexta-feira, agosto 01, 2008

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Iuuuuuupiiiiii!!!

A VIDA ESTÁ BOA? VOCÊ ESTÁ COM VONTADE DE SAIR PULANDO FEITO UM POTRINHO NO CAMPO? ENTÃO SUA CRIANÇA INTERIOR ESTÁ NO AUGE DA FELICIDADE. MAS, SE NÃO ESTIVER, TEM JEITO DE DESPERTÁ-LA, MESMO SEM PRECISAR EMPINAR PIPA, TOMAR SORVETE OU PUXAR O CAVANHAQUE DO CHEFE

texto Liane Alves fotos Eduardo Delfim


Banho de mangueira no quintal pode terminar em guerra de esquicho e festa - é só começar

Se um marciano recém-chegado à Terra perguntasse a você o que é felicidade, que cena você escolheria para mostrar esse sentimento em seu mais puro estado? Um casal se unindo numa igreja? Um jovem recebendo seu diploma? Uma mãe amparando seu bebê pela primeira vez? Todas essas imagens expressam diferentes formas de realização, mas eu preferiria levá-lo para a beira de um rio para ver crianças brincando de pular na água, naquele tchibum sem igual na vida, correndo pela pedra para tomar impulso e mergulhar de pé com as pernas balançando para tudo que é lado. Tem alegria maior, mais pura que essa? Só a de cenas comparáveis: a menina escorregando na grama a mil por hora na chapa improvisada de madeira, o garoto pegando jacaré... Todas versões da mesma coisa: inocência e frescor, brincadeira e leveza, corpo e emoção, curiosidade e criatividade, senso de aventura e liberdade.

Se a gente reparar bem, ao nomear essas qualidades estaremos falando exatamente dos componentes básicos que garantem a felicidade. Não tem dinheiro no meio, tem? Também não tem segurança e estabilidade, tem? Esses momentos, ora veja, também não dependem nem de nada nem de ninguém. Muito menos de condições especiais, de pré-requisitos, ou de como a coisa deve ou não deve ser, essa mania de gente adulta. Porém, vamos ter de admitir: todo mundo sabe que não é mais criança. Temos outras necessidades, compromissos e responsabilidades. Criamos vínculos, travas, mordaças. Mas, hummm, será que não dá mesmo para conciliar as duas coisas? Será que não dá para buscar mais leveza e frescor, espontaneidade e alegria ou aventura e irreverência em nossas vidas? O mais legal dessa história é que dá, sim.

Você, como eu, também torcia o nariz quando ouvia falar da criança interior? E de como era importante expressá-la no dia-a-dia? Irônica, cheguei até a imaginar a cena: as crianças interiores do adultos saindo para fora das pessoas com estilingue no bolso ou com o coelho da Mônica pela mão, prontas para atingir o primeiro desavisado que aparecesse. Por isso, quando alguém vinha com essa conversa, assobiava, olhava para os lados e saltava fora. Até que um dia resolvi me aprofundar no assunto.

O criador da psicologia analítica, o suiço Carl Gustav Jung, por exemplo, passou um bom tempo de sua vida a estudar o tema. Um de seus mais brilhantes discípulos, James Hillman, também. Isso queria dizer que essa história de criança interna não era só coisa de livro de auto-ajuda. Reconheci: estava mais que na hora de saber como o contato com meu lado criança poderia ajudar a me dar mais vigor e alegria na vida.

Sob o quentinho do sol

Existem várias maneiras de contatar sua criança interna, e uma das melhores é a mais direta. Isto é, sempre que tiver chance, torne-se uma criança, desperte em você mesmo o menino ou menina que já foi um dia. Um grande mestre nos ensina como fazer isso: “Se estiver na praia, comece a catar conchinhas ou a fazer desenhos na areia; se estiver no jardim, brinque com o cachorro, observe com atenção formigas, passarinhos e borboletas. Sempre que puder estar com crianças de verdade, misture-se a elas e deixe de ser adulto. Deite-se no gramado, como uma criança pequena aproveitando o quentinho do sol. Corra pelado, como a meninada faria. No banheiro, em frente ao espelho, faça careta, ou, quando estiver na banheira, jogue água para cima, brinque com patos de plásticos ou barquinhos. As possibilidades são infinitas. O mais importante é esquecer-se da sua idade”. Essas palavras são do mestre indiano Osho. Ele nos ensinou a nos tornarmos crianças como um tipo especial e muito importante de meditação. E explica por que ela nos faz bem: “Tudo isso é necessário para conectá-lo outra vez com sua infância. Você tem que regredir, chegar ao fundo das memórias, porque as coisas só podem ser mudadas se atingirmos suas raízes”.

É isso: quando entramos em contato com a criança que já fomos, acessamos a energia e a criatividade do mundo infantil e somos rejuvenescidos pelo influxo dessa nova seiva. A gente se sente renovado, disposto. É por esse motivo que, quando estamos relaxados e felizes, inconscientemente já fazemos isso. As férias, por exemplo, favorecem o aparecimento de várias crianças interiores. Flagrei algumas com seus 40 e poucos anos empinando pipa na praia, jogando peladas na areia, disputando campeonatos de pebolim no bar ou tomando sorvete com cobertura de pastilhas de chocolate coloridas, jujuba, damasco e cereja, tudo ao mesmo tempo.

Ok, essa é uma das maneiras de arejar essa criança presa dentro do armário do peito e convidá-la para passear. Mas será a única?

Garotos são de lascar

Você era uma criança levada? Mandona? O dono da bola ou o que escolhia o pessoal na hora de jogar queimada? Ou era aquela criaturinha tímida e sensível com o cobertorzinho na mão e o último a ser escolhido na hora do jogo de vôlei? Morro de vergonha de dizer que era do segundo time, o das crianças quietinhas. Daquelas que costumam ser passadas para trás pelas mais espertas, sabe? Então, uma das questões cruciais que tinha para a psicoterapeuta junguiana Sônia Belotti era exatamente essa: a criança interior com que tenho de entrar em contato é aquela menina que sempre preferiu seu mundo interno e as paisagens da natureza? São as crianças que já fomos na vida?


O primeiro passo é aceitar a criança que já fomos um dia, do jeitinho que ela era


A resposta esconde uma sutileza. “A criança interior é aquela que imaginamos ter sido um dia. Talvez nem seja realmente a criança que realmente fomos, segundo nossos pais ou amigos, por exemplo, mas sim aquela que ficou registrada em nossa psique, com suas vivências e emoções. Ela é inteiramente subjetiva”, diz Sônia Belotti.

Bom, agora que já sabemos quem ela é, como vamos acessála em nossa memória? A terapeuta diz que uma boa maneira é verificar atentamente nossas fotografias de infância. Olhares e expressões nos dizem muito de quem a gente foi, mais até que nossas recordações, que às vezes traem o que verdadeiramente nos aconteceu. Sônia me aconselhou também a fazer uma meditação usando visualização: imaginar a garota que fui, no meu quarto, ou envolvida com minha brincadeira favorita. Quando essas imagens estivessem nítidas em minha mente, ela me disse para olhar para essa criança em seus olhos e abraçá-la, totalmente disposta a aceitá-la de coração tal como ela é. É um exercício que em psicanálise se chama de imaginação ativa.

Com uma certa resistência, fui fazer a experiência da tal visualização. Emocionei-me bastante, percebi o quanto gostava dessa menina de pijaminha de flanela que eu tinha sido.

Lembrar-se de si mesmo quando criança ajuda a contatar uma fonte inesgotável de energia

Também vi o quanto ela precisava do meu abraço, do meu aconchego. Saí da meditação com um sentimento muito bom no coração.

Outra prática proposta por Sônia para travar contato com a criança interior é deixar um retrato de infância no criado-mudo por uns tempos. E, sempre que possível, perguntar mentalmente a essa criança, antes de dormir, o que ela mais deseja na vida. A resposta, diz a especialista, pode vir em sonhos, insights (revelações instantâneas), numa coisa que você vai ler ou alguém vai lhe dizer. Seu inconsciente, que está em contato com seu ser mais essencial, vai responder. E, com base nessa resposta, suas próximas metas podem estar mais alinhadas esse seu eu mais profundo.

Investir em seus próprios sonhos (mesmo com adaptações) garante a ativação de algumas das qualidades que mais trazem felicidade à alma humana: coragem, alegria, abertura, sentido de aventura. Essa me parece uma maneira inteligente de entrar em contato com a menina ou menino que um dia fomos. Tanto quanto tomar sorvete ou jogar pingue-pongue.

Jung e os bloquinhos


Agora que já sabemos entrar em contato com a criança interna, temos de saber para que serve isso, afinal. E ninguém melhor que o psicanalista suiço Carl Gustav Jung para responder. Jung fez uma fantástica descoberta: percebeu que, ao repetir sua brincadeira favorita de infância, que era construir casinhas com blocos de madeira, pedras e areia, acionava uma enorme fonte de energia e criatividade interna. Enquanto se divertia em montar cidades usando as pecinhas de madeira, idéias brotavam aos borbotões em sua mente. Foi com base nesse expediente que ele elaborou temas importantes dentro de seu sistema de pensamento, como a teoria dos arquétipos, do inconsciente coletivo e outros temas essenciais de seu trabalho. Para completar, escreveu uma tese onde explica a enorme importância de acessar o mundo interno infantil e “regredir” voluntariamente como uma maneira de acessar uma fonte insuspeitada de vitalidade, intuição e abertura.

Seu discípulo James Hillman também dá força a essa idéia da brincadeira: “O que a psicologia profunda passou a denominar regressão é apenas o retorno à criança interna”, disse ele. É um processo de interiorização na busca de energia criativa, inovadora, que nos possibilita ampliar e desenvolver nossa jornada na busca de um sentimento de totalidade e plenitude. Por isso é que, depois de jogar pelada, furar onda ou andar de bicicleta, não há marmanjo que chegue em casa sem aquele sorrisão no rosto. Mesmo fisicamente exaustos, a vida nos parece tão boa e generosa que nos dá muita vontade de realizar coisas, amar as pessoas e ser feliz.

Realizar sonhos é outra maneira insuspeitada de expressar o que pede sua alma infantil

A criança ferida

A maioria das pessoas continua tendo contato com sua criança interior mesmo adulta, por meio de hábitos, desejos e condutas infantis. E essa criança interior que habita a alma de cada um pode vir à tona de várias formas, tanto positivas quanto negativas. Ela pode ser alegre, divertida, viva, quando expressa o arquétipo em seu lado positivo, ou melancólica, mal-humorada, teimosa ou birrenta, quando se mostra em seu lado negativo. Nesse último caso, essa exteriorização quase sempre vai revelar uma criança ferida e até hoje magoada. “O primeiro lugar em que vamos encontrar essa criança abandonada é nos sonhos, em que nós mesmos, um filho nosso ou uma criança desconhecida é negligenciada, esquecida, deixada para trás”, diz James Hillman. Acalentar, cuidar e dar segurança a essa criança ferida, seja com visualizações, seja com terapia, pode ser um passo muito importante para sua cura, segundo os parâmetros da psicologia analítica.

E Jung dizia mais ainda. Ele afirmava que toda vez que temos vontade de expressar os aspectos positivos da criança interna estamos dando claros sinais de que podemos estar a um passo de um grande evento: a obtenção da totalidade psíquica ou, em outras palavras, de atingir aquele estado de plenitude, alegria e felicidade tão bem representado pela criança quando tem todas as suas necessidade atendidas. Lembra a linda imagem usada pela compositora Dolores Duran que fala “da paz de criança dormindo”, na canção Para Enfeitar a Noite do meu Bem? O mestre da psicanálise diria que ela retrata com poesia e precisão o arquétipo da Criança Divina, que é a expressão maior e mais profunda da criança interior. É como se fosse a dimensão mais pura de nós mesmos, que pode ser atingida em alguns raros momentos durante a vida, quando temos a maravilhosa sensação de estar plenos, felizes e absolutamente integrados ao universo.

Você tinha idéia do quanto é importante travar contato com sua criança? Eu não.

Os egoistinhas


E aqueles adultos-crianças que não amadurecem nunca, chatinhos, mimados, egoístas e teimosos? Bom, eles estão em contato com o aspecto negativo de sua criança interior e tão identificados com ele que não conseguem amadurecer. É muito diferente de um adulto maduro que trava contato com seus aspectos infantis (tanto positivos quanto negativos, pois a tentativa é justamente conhecer-se melhor). Um é uma criança grande que não alcançou a saudável contrapartida da maturidade. O outro, um ser maduro que tem a sabedoria de não asfixiar a criança que já foi um dia.

Existe ainda outra classificação interessante. Adultos e crianças podem ser extrovertidos e introvertidos, segundo as concepções junguiana e freudiana. Sonhos de crianças/adultos introvertidos, que extraem mais prazer de seu centro interno, trazem características mais autocentradas: viajar sozinho de moto pelo deserto de Atacama, ter um refúgio de madeira à beira de um lago ou construir um veleiro com as próprias mãos. O contrário também vale: os extrovertidos, que extraem mais prazer com o que está fora, podem sonhar em ir com os amigos para a África do Sul na próxima Copa do Mundo, querer organizar um mutirão de Natal para ajudar crianças carentes ou dar uma festa de arromba para comemorar seus 50 anos. O ideal, porém, é que, temperados pela sabedoria da maturidade, o adulto amplie um pouco mais seu centro de prazer infantil, ou incluindo alguém, no caso dos introvertidos, ou excluindo o excesso de pessoas ou a atividade exagerada, quando se fala de extrovertidos. “A maturidade e o autoconhecimento podem trazer mais equilíbrio à criança interna”, diz Sônia. Os sonhos ficam mais ricos se compartilhados em mais justa medida e podem render mais satisfação.

Então, tá combinado: toda vez que você apostar em realizar um sonho (mesmo os atuais), tiver certeza de que o futuro vai ser benéfico e se sentir radiante e feliz, já vai saber que estará expressando sua criança interior. Também vai lembrar que as brincadeiras de infância e os exercícios de imaginação ativa, as ocasiões em que você se imagina quando pequeno, podem acessar um manancial imenso de criatividade e energia. Isso só para começar o jogo, porque tem muito mais coisas interessantes a respeito desse assunto, se a gente quiser se aprofundar. Da próxima vez que passar por uma seção de livros que falem da criança interior, juro que dou mais uma olhadinha e conto.

Sou muito muito fã da jornalista da revista "Vida Simples" Liane Alves, compartilho de tudo isso que ela refletiu sobre trazer a criança interior que está em nós, sem que isso seja um esterótipo de um adulto retardado que gosta de bala, roda gigante e cor-de-rosa. Eu e minhas amigas amamos tudo isso de forma feliz, sem o esterótipo do "baby talk", sacaram?

beijos beijos e até a próxima!

Julia Porto

terça-feira, julho 15, 2008



A morte nos desenhos infantis

Quem não se lembra da morte da mãe do Bambi? E o rei leão, pai de Simba, tombando no deserto africano? Triste. Tristíssimo. Engrossando a lista um pouco mais recente tem também a mãe de Nemo, que morre junto com todos os peixinhos irmãos dele na hora do nascimento. Ele é único que sobra. Sad, sad, sad.


Um outro desenho que já foi feito e refeito e tem várias versões é "A menina e o porquinho". O desenho mais antigo é lindo e um dos que mais marcou minha infância. Charlotte, a aranha, é a conselheira e melhor amiga do porquinho Wilbur. Ao final do filme ela termina de tecer uma enorme teia brilhante para deixar aos seus filhotes porque sabe que quando eles nasceram é o mesmo momento em que ela terá de partir. Em sua teia ela tece uma mensagem para convencer o fazendeiro a deixar o porquinho morar com sua dona na fazenda.

O porquinho só entende o motivo de sua amiga não estar mais ali quando vê muitas aranhinhas se espalhando pela teia. É o tal "the circle of life", como diz música do Rei Leão.

Alguns desenhos representam bem a existência da morte e das perdas de um modo geral.


The Circle of life

From the day we arrive on the planet

And blinking, step into the sun
There's more to see than can ever be seenMore to do than can ever be done
There's far too much to take in here
More to find than can ever be found
But the sun rolling high
Through the sapphire sky
Keeps great and small on the endless round
It's the Circle of Life

And it moves us all
Through despair and hope
Through faith and love
Till we find our place
On the path unwinding
In the CircleThe Circle of Life
It's the Circle of Life

And it moves us all
Through despair and hope
Through faith and love
Till we find our place
On the path unwinding
In the Circle, The Circle of Life

quarta-feira, maio 21, 2008

DO NOTHING, DO IT IF YOU CAN

Ist's a huge thing

Pessoas passionais, extrovertidas e espontâneas como eu sempre fazem algo, ou dizem o que pensam, o que sentem. Tudo isso é pra eu me sentir melhor, pra deixar as coisas em pratos limpos, ou mesmo porque sou assim mesmo, impulsiva. Se eu ficar muito aborrecida sou do tipo que pode ensaiar colocar as mãos nas cadeiras pra dizer o que sinto quando algo me desagrada.

Mão nas cadeiras pra uns e dedo no rosto do interlocutor pra outros é sinônimo de força, combatividade e uma maneira não se omitir à respeito das coisas. Muitas vezes o dedo no rosto é pertinente porque o mundo tá cheio de gente sem noção que precisa ouvir umas poucas e boas quando fazem coisas ou dizem coisas que nos desrespeitam. Concordo com essa atitude em algumas situações porque detesto gente omissa. Detesto gente covarde, que fala pelos cantos, na sombra...

Mas tem uma outra situação que me interessa mais e que requer muito mais força, na qual tenho pensado, que é mil vezes mais difícil de segurar (ao menos pra mim) que é o "do nothing moment".

DE JULIA Porto PRA JULIA Porto

-E agora, o que eu faço? O que eu falo? Falo alguma coisa?

_ Não, não faça nada..

_ Como não? Vou ficar de braços cruzados?

_ Pode cruzar ou não, pode sentar, pode tomar um chá, mas com relação ao que te aflige não faça nada, não dê opinião. Não faça nada.

_ Mas "fazer nada" não é nada, horas!!!!

_ Você se engana, não fazer nada é fazer muita coisa na maioria das vezes. Se segura, não faz nada.

_ Mas eu quero fazer algo, dizer algo...

_ Eu sei que você quer, mas se segura. Eu sei que é difícil pra você. A maioria luta pelo contrário, pra conseguir tomar a iniciativa, pra dizer o que pensa, o que sente... você não... eu te conheço bem, eu sei como você se sente.

_ Seja forte, bunitona. Você que adora idiomas e adora expressões inglês: DO NOTHING.

quinta-feira, maio 01, 2008


Ficar em casa ou romper a casca?

Então os filhos se tornaram adultos e estão relativamente encaminhados na vida. Porém, nem pensam em sair para ganhar o mundo e acham ótimo ficar com a família (que, por sua vez, também está adorando tê-los sempre à vista). É normal ou será que existe alguma coisa de errado nisso?

por Liane Alves


É um fenômeno mundial: cada vez mais os filhos prolongam sua estada na casa dos pais, desfrutando de benesses como carinho e apoio quase inesgotáveis, liberdade, a comidinha predileta e outros confortos. Os pais parecem aceitar essa adolescência quase perpétua numa boa e, em muitos casos, estimulam a permanência dos filhos em casa até como uma estratégia para enfrentar o próprio envelhecimento. Mas há muita gente se perguntando se essa realidade é apenas mais uma faceta de um mundo em que os valores estão mudando rapidamente ou se há efetivamente algo de negativo nisso. Por isso, pais e filhos, leiam com carinho esta matéria. E experimentem, nem que seja por alguns momentos, trocar de papel e imaginar o que sente e pensa cada lado dessa história devidamente apresentada para filhos e pais abaixo.

A história dos filhos
A cosquinha que dá vontade de sair de casa já começou? Pode ser até que ela já tenha dado um pouco antes, ao sair da faculdade, aos 22 anos, ou quem sabe quando seus irmãos se casaram e você ficou para trás, aos 25, ou quando um amigo ou amiga o convidou para morar junto, aos 27. Mas parecia muito cedo ainda. Nesses momentos de dúvida, você olhou para seus pais, viu que ainda era muito ligado a eles, que gostava do conforto do seu quarto, que tinha muita liberdade e, principalmente, que a vida lá fora seria dureza. E não saiu. Não precisa se martirizar por isso: saiba que você está em ótima companhia. Filhos que ficam mais tempo em casa, até os 28, 30 ou 32 anos (se não for mais), transformaram-se num fenômeno recente, observado não só na classe média do Brasil como em vários países do mundo é a chamada geração canguru. Na Itália, por exemplo, filhos como você ficaram conhecidos como mammone (palavra que vem de mamma, a soberana mãe italiana que adora ter seus rebentos na barra da saia). Na França, o pessoal anda ficando mais com os pais porque os empregos também estão difíceis por lá. No Brasil, segundo o levantamento feito pelo geógrafo Arlindo Mello para sua tese de mestrado na Escola Nacional de Estatísticas do Rio de Janeiro, 25% por cento dos filhos que ainda moram na casa dos pais na Cidade Maravilhosa têm mais de 30 anos. É gente pra burro. Embora esse universo ainda não seja quantificado com a devida exatidão (segundo o IBGE, os jovens brasileiros que caem na vida mais cedo ainda são a maioria), a dificuldade para sobreviver e as facilidades dadas pelos pais andam conservando muita gente em casa. Portanto, você não é uma exceção isolada: muitas famílias estão mesmo abraçando seus filhos por mais tempo.

O mercado imobiliário, por exemplo, já detectou a mudança. Os enormes apartamentos com quatro suítes e cinco garagens ou os flats que se intercomunicam muitas vezes são vendidos para casais de alta renda com filhos adultos. Os proprietários mais velhos que têm apartamentos grandes não estão se desfazendo mais deles para ir para um menor. Ou os filhos ficaram com eles ou, se saíram, podem voltar, afirma Ely Whertheim, vice-presidente imobiliário do Sindicato das Construtoras de São Paulo (SindusCon-SP).

Fátima Fachin sabe muito bem disso. Aos 28 anos ela viu, abismada, seu pai comprar um apartamento com três suítes quando ela estava prestes a sair de casa para se casar, dois anos depois de sua irmã mais nova. Fátima questionou a decisão. E o pai respondeu na lata: Dou um prazo de carência de cinco anos para o casamento de vocês duas. Se der errado, estou esperando vocês aqui com sua mãe. Se não der, vendo o apartamento, compro um veleiro e vou para a Martinica. A Martinica, para o pai de Fátima, é a imagem de uma utopia, uma Pasárgada. Ele decidiu adiar seu sonho idílico por desconfiar da durabilidade do casamento de hoje e também por achá-las incapazes de sobreviver sozinhas, a partir mesmo de suas escolhas profissionais (música e artes plásticas). Pode ser pragmático, até generoso, mas, puxa, não dá para controlar a vida assim..., diz Fátima.

Luciana Alves Pereira é outra moça de 28 anos que desfrutava de um ambiente e tanto com a família. Filha de pai arquiteto, morava numa casa belíssima de madeira e vidro, fotografada por várias revistas de arquitetura. Mas, no fim do ano passado, começou a sentir que seu prazo de validade por lá já estava expirando. Por ser muito amiga e próxima dos pais, foi duro convencêlos de que queria deixá-los para experimentar a grande aventura da vida independente. Mas o destino ajudou: De repente, vi que se havia formado uma brecha em que eles não precisavam tanto mais de mim. Minha mãe estava bem, meu pai também e minha irmã já estava casada. Se não aproveitasse aquele momento em que tudo fluía, acho que depois ficaria muito difícil. Na sua decisão, está embutida bastante responsabilidade. Saí porque estava ganhando o suficiente para alugar um apartamento de quarto e sala no centro. Não tem sentido viver sozinha e esperar que pai e mãe ajudem a cobrir o cartão de crédito, diz a ajuizada Luciana. Também se sentiu feliz porque não precisou sair de casa por causa de namorado. A gente é de uma geração acostumada a zapear no controle remoto da televisão. Imagine se saísse por causa de alguém e não desse certo. Teria de voltar para casa com um gosto de fracasso na boca, com a sensação de que não conseguia sobreviver sozinha. Mesmo tendo a certeza de que pai e mãe a receberiam de braços abertos.

A história de Luciana mostra que a casa dos pais certamente estará aberta quando você precisar (ufa!). A psicóloga Lidia Aratangy, por exemplo, viu sua filha voltar com duas crianças pequenas após a moça ficar viúva com apenas 30 anos. Garanti que ela teria nosso apoio para o tempo que fosse necessário. No caso dela, isso durou um ano e meio. Mas minha filha sabia que ficar conosco era uma solução provisória, paliativa, afirma a psicóloga. Um tempo até ela poder se arrumar de novo na vida. Mesmo quando saem com menos idade, muitos jovens ainda conservam uma parte do seu ninho com os pais. É o caso do administrador de empresas Paulo Henrique (que pediu para ter o nome trocado nesta reportagem), 25 anos, que responde por um cargo de chefia numa multinacional da indústria química de São Paulo. Aluno brilhante e responsável, veio de Belo Horizonte aos 18 anos para estudar na capital paulista. Seus parcos recursos para se manter, porém, o fizeram morar em todos os ambientes possíveis.

Mesmo no último ano, já formado, trocou oito vezes de endereço, na maioria das vezes nada recomendáveis. É famoso entre os amigos como Mister Pig (ou Senhor Porco), numa alusão à infinidade de muquifos (também conhecidos como cabeça-de-porco) em que teve de morar em São Paulo. Só agora, num bom emprego e ganhando bem, Paulo decidiu se estabelecer. Mas quem vê seu desembaraço e independência como profissional nem desconfia que quase todo fim de semana ele arruma sua malinha e vai para Belo Horizonte para ver seus pais e ter a roupa lavada. De quebra, ainda volta com um a quentinha com aquela comida que só a mamãe sabe fazer.

Então, como você vê, existem dos acomodados aos que só querem uma força da família para cumprir seu projeto de vida. Aliás, essa é a grande pergunta que você deve fazer a si mesmo quando começar a coceirinha de querer sair de casa. Saber qual é seu projeto de vida esclarece a situação. Querer ficar na casa dos pais para fazer um mestrado ou curso de especialização para ter melhores chances no mercado de trabalho é uma coisa. Ficar porque tem certeza de que seu padrão de vida vai abaixar quando começar a pagar suas próprias contas é outra, diz a psicóloga Lidia Aratangy, que aconselha, inclusive, os pais a sentarem com seus filhos e perguntarem bem claramente o que eles pretendem fazer de suas vidas. Autora de livros sobre a relação de pais e filhos, Lidia, que já é avó, perturba-se com a infantilização exagerada dos jovens adultos de hoje. A infantilização começa cedo. Aos 12 anos, por exemplo, os adolescentes de hoje lêem as Aventuras do Capitão Cueca, um livro quase infantil. No meu tempo, a gente lia Erico Verissimo e boa literatura adulta. Isso faz diferença mais tarde, diz Lidia. Uma das razões para isso ocorrer talvez seja o excesso de mimos dos pais, que infantilizam os adolescentes e os deixam pouco tolerantes às frustrações como as crianças. Acontece que uma boa relação com as próprias frustrações é um dos alicerces da maturidade. Nesse caso, então, o que fazer? Terapia é bom. Mas também vôos rasos, curtos, só para sentir qual é sua autonomia. Que tal passar um tempo na casa de uma irmã? Ou de um amigo? Mesmo que o desempenho não seja muito bom, não desanime. Aprender é o maior capacidade do ser humano. A gente pode ir para a nova casa não sabendo fritar um ovo, sim. Os primeiros podem sair queimadinhos, mas depois a gente aprende, lembra a advogada Sueli Nunes, que saiu de casa aos 30 anos sem saber cozinhar, passar roupa ou limpar banheiro. Em seis meses de tentativas, já rodopiava pelo seu apartamento de lencinho na cabeça como uma borboleta feliz.

Além dos mimos, a sedução e a chantagem emocional dos pais podem gerar um aumento no tempo de estadia dos filhos. Quando eles ameaçam abrir as asas, chega uma passagem de avião para longe. Quando tentam de novo, uma fragilidade súbita de um dos genitores estanca o processo. Mas dá para saber quando é fita ou suborno,garante a dentista paulista Caritas Marcondes, que tentou sair de casa quatro vezes antes de conseguir realizar a proeza. Na verdade, a descoberta da mentira e da manipulação ajuda muito a concretizar a decisão de partir.

E, se você não quiser sair de casa, pergunte-se sinceramente por quê. Pode ser que realmente esse não seja o momento de sair. Por mil motivos que só você tem condições de descobrir. De qualquer forma, o autoconhecimento sempre vai colocar mais luz na situação. Até você conseguir resolvê-la um dia.

Isso posto, boa sorte. Mas antes leia abaixo "A história dos pais" para entender melhor o que passa na cabeça deles.


Demorô!
Planeje sua saída. Sente, faça contas, calcule seus gastos.
Tenha um dinheiro reservado para os primeiros meses.
Visite o apê que possa pagar até encontrar um de que goste.
Converse com quem já saiu e aprenda com suas experiências.
Fale francamente com seus pais e resista às seduções.
Estabeleça um prazo razoável para a saída.
Saiba antes a quem recorrer se precisar de algum dinheiro.
Decidida a questão, alugado o apê, vá em frente.
vTenha um plano B na manga (que não inclua a volta à casa dos pais).

A história dos pais
Lembra aquela vontade de sair de casa, arriscar o pescoço, meter os peitos, enfrentar desafios e cair na estrada com uma calça velha azul e desbotada? Pois é, parece não existir mais. Ou, se existe, não é bem assim. Calça desbotada ainda pode ser, mas hoje a passagem de avião dos filhos tem ida e volta bem definidas, com certeza com o mesmo endereço da hora da partida: a casa dos pais. Passar dificuldades e perrengues, vamos ser sinceros, em nome do quê? Independência? Liberdade? Bens materiais? É o que mais eles têm em casa. Porta do quarto fechada, vale tudo, ou quase tudo, desde que não se acordem os vizinhos ou prejudique a saúde, é claro. Com a vantagem de não ter de pagar pela roupa limpinha, pelo canelone de ricota e, muitas vezes, nem pela conta do celular.

Não há como negar: seus filhos gostam do ninho, da plumagem macia que você deu para eles, que os defende em parte de uma vida mais competitiva, insegura e com um número bem menor de oportunidades do que você próprio teve. Além disso, confesse, é gostoso ver as crianças ainda por perto, mesmo que elas já sejam bem grandinhas. Você se delicia com suas aventuras o namorado, a namorada, aquela viagem maluca nos Andes, as histórias dos amigos, os desafios do início da vida profissional... A presença deles traz vida, frescor, um certo encanto, a juventude que todos nós tanto amamos. Não é para se envergonhar,portanto. Os filhos ficam mais tempo em casa porque a vida mudou. E muito. Em primeiro lugar, ela esticou temos mais tempo para viver e, com isso, as fases da vida também se alongaram. A expectativa de vida hoje no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de quase 72 anos. Casa-se mais tarde também, um ano a mais, em média, do que quando você era jovem, se estiver na casa dos 50. A adolescência tornou-se compridíssima. No seu tempo, dizia-se que ela ia dos 13 até os 18, vá lá,19 anos. Isto é, um adolescente (teenager, em inglês) estava no período de vida que vai dos thirteen (13) aos nineteen (19). Ao se completarem 20 anos, mudava-se de década e status o adolescente passava a ser um jovem adulto.

A própria lei brasileira considera que, aos 18 anos, uma pessoa já é plenamente responsável por seus atos. Mas certamente não pela sua sobrevivência, como se sabe. Com essa idade, um jovem (da classe média, pelo menos) ainda está no primeiro ou segundo ano da faculdade, com pouquíssimas chances de emprego e auto-suficiência. Também não pensa seriamente em se casar, em ter uma casa e filhos, em se tornar responsável por uma família, condição que atestaria sua maturidade psicológica e autonomia na sociedade. Enfim, é adulto mas naquelas, né?

A adolescência tornou-se tão longa que a psicóloga carioca Tânia Zagury dedicou um livro inteiro, Encurtando a Adolescência, a esse assunto. Hoje, considera-se que a adolescência começa bem antes, já com uns 11 anos e alonga-se até um período indeterminado, que pode ir até a casa dos 20: 22, 23, 24 anos, sabe Deus quando. Essa visão, que vem dos próprios jovens com relação a eles mesmos, foi detectada pelo psicólogo paulista Yves de la Taille, autor do livro Labirintos da Moral, que assina junto com o educador Mário Sérgio Cortella. Diante do olhar estupefato do professor, todos os alunos do quarto ano de psicologia da USP, gente dos seus 23, 24 anos, levantaram a mão quando perguntados se consideravam a si próprios como adolescentes. Acreditam nisso porque certamente não têm autonomia. Podem ter independência na casa dos pais, total liberdade de ir e vir, mas não têm auto-suficiência, diz. Esse é, segundo Yves de la Taille, o grande fator que separa sua geração da de seus filhos: a capacidade de ficar em pé nas próprias pernas vinha mais cedo e era muito desejada. Havia um certo brio em sair de casa, manter-se sozinho, enfrentar a vida para ter independência e vida própria. Esse orgulho vinha do clima cultural vigente: ao sair de casa, rompiam-se as amarras com um sistema familiar duramente contestado e abriam-se caminhos para novas formas de viver em sociedade. Para a turbulenta geração dos anos 60 e 70, independência rimava com honra. Inaugurou- se uma outra época: os ídolos dos jovens passaram a ser os próprios jovens, com sua rebeldia e amor pela liberdade. Antes, os ídolos dos jovens eram seus próprios pais, afirma De la Taille.

Mudança brutal. A juventude, com sua beleza e ímpeto de vida, tornou-se o mais desejado dos bens. Por isso, os filhos de hoje querem permanecer adolescentes até a última ponta. E os pais também. Pensem bem: ter os filhos por perto, como se fossem crianças, pode aumentar, e muito, a ilusão de eterna juventude. E adiar o momento de se reestruturar um casamento, de se perguntar o que realmente gosta de fazer na vida, procurar projetos que incluam a realização pessoal. Reencontrar a própria individualidade, depois de tantos anos se dedicando a ajudar a formar a identidade dos filhos, pode ser um processo doloroso. Além de ser uma maneira inconsciente e engenhosa de não enfrentar a própria idade e, com isso, a proximidade da etapa final da existência (que também se alongou e tornou-se mais prazerosa e criativa, ainda bem).

Sábios são os indianos, que, encerrada a vida produtiva, de exercício profissional e criação de filhos, iniciam outra etapa completamente diferente, consagrada ao autoconhecimento e aperfeiçoamento interior. Fazem retiros, peregrinações espirituais, vão atrás de mestres ou se tornam um deles. Mesmo no Ocidente, onde a procura espiritual não parece ser tão visceral e profunda, muitos pais que soltaram seus filhos para o mundo tiveram a oportunidade de experimentar o que sempre gostariam de fazer e nunca haviam conseguido: viajar, ensaiar uma atividade artística ou literária (pintar, esculpir, tocar um instrumento, escrever), fazer cursos livres, entrar numa nova faculdade para depois, quem sabe, dar aulas ou dedicar-se a uma atividade voluntária. Os pais podem, numa imagem bem prosaica, voltar a comer a coxinha do frango, depois de tantos anos tendo deixado essa parte saborosa para os filhos durante as refeições.

Os 50, 60 e 70 anos, então, podem se tornar um rico período de busca de realização. E por que não? de felicidade. Aos 57 anos, Blanca Suarez, por exemplo, que durante mais de dez anos foi relações-públicas da Maison de la France, órgão oficial do turismo francês no Brasil, abandonou a idéia de continuar nesse ramo de atividade para se dedicar à paixão de sua vida: os animais. Inscreveu- se como voluntária numa ONG,a Arca, que acolhe animais enjeitados, e, por enquanto, não pensa em voltar ao circuito de eventos, festas e viagens. Conquistei o direito de fazer só o que meu coração diz. Mãe de um médico veterinário de 25 anos que tem mais quatro anos de mestrado e doutorado pela frente e que ainda mora em sua casa, ela não esperou para conquistar o espaço próprio. Estou me preparando para quando ele for embora.

Por isso, tranqüilize-se, não é errado ter os filhos por perto, se realmente há necessidade disso e se você não se torna dependente da lufada de oxigênio que eles trazem para casa, tentando segurá-los com mimos ou chantagens emocionais. A história só fica meio esquisita quando não há essa precisão e há um certo comodismo por parte deles, uma espécie de pânico de enfrentar a vida e passar pelas eventuais dificuldades que irão se apresentar no caminho. Porque é claro que será diferente. Essa geração ama o conforto tanto quanto a geração passada gostava da liberdade. Mas o ser humano precisa de riscos e desafios para crescer, afirma Yves de la Taille. Enfim, precisa quebrar a cara às vezes. Filhotes são mesmo para sair do ninho, ainda que isso custe um pouquinho mais.

Você mesmo desempenhou o seu papel nessa mudança rumo a uma vida mais protegida. De peito aberto, sua geração ajudou a destruir convenções, balançar a moral estabelecida e dar uma sacudida geral nas ideologias. Foram derrubados os muros que bloqueavam a estrada e agora seus filhos passeiam por ela sobre asfalto macio. Eles têm mais tempo para aprender, mais abertura para viver e, de certa maneira,muito mais facilidades. Têm, em suma, acesso a informações e experiências quase inimagináveis em seu tempo. Por motivos diferentes (e são muitos, não tenha dúvida), sorte sua por ter vivido sua época. Sorte dos seus filhos por viverem a deles.

Agora, com o coração mais pacificado, leia o que acontece com seus filhos. Leia e reflita. E descubra, nele e em você, se há uma necessidade de mudança.

Chegou a hora?
Lembre-se sempre: seu filho já é um adulto.
Mesmo que não precise, faça questão de que ele ajude em casa.
Estabeleça com nitidez as responsabilidades dele.
Deixe claras as conseqüências do não cumprimento dessas regras.
Se ele pensar em sair, procure ajudá-lo no que for possível.
Não use suas dificuldades para mantê-lo em casa.
Se ele deseja ficar para ajudá-lo por alguma razão, reflita bem.
Procure retomar sua própria individualidade.
Inaugure uma fase de realização de sonhos e busca espiritual.

Então, quero sair e ao mesmo tempo não quero. Quero ter minha privacidade e minha casa só minha, quero ser independente mas adoro a companhia, o carinho, o cuidado e a proteção de papai e mamãe. Rapadura é doce mas não é mole não. Crescer é muito difícil.