Mostrando postagens com marcador Pra mim o mundo como existe não basta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pra mim o mundo como existe não basta. Mostrar todas as postagens

domingo, setembro 28, 2008







Jacek Yerka é um Polaco com 55 anos que muito cedo começou a sua incursão pela área artística. Oriundo de uma família virada para as artes - ambos os pais frequentaram a Academia de Belas Artes - toda a sua infância esteve rodeado de materiais que cativaram a sua atenção para o desenho e pintura. As suas primeiras memórias de infância são unicamente esboços, cheiro de pinturas, tinta, papel e pincéis.

O trecho acima foi retirado deste blog.

http://blog.uncovering.org/archives/2008/01/os_mundos_de_fa.html


Estou fascinada com a obra de Yerka. Seu "mundo da fantasia" é rico e nada óbvio, são poços, relógios, árvores, sinais de trânsito, bichos-casa e castelos.

Ele faz uso de forma magistral da mistura de planos, superfícies, fundo, planos sobrepostos, chão, teto... gramados de florestas que são também tetos de arranha-céus. É simplesmente lindo.

Pra ele, assim como pra mim, o mundo tal como existe não basta.

domingo, julho 20, 2008

"POETA É AQUELE PARA QUEM O MUNDO COMO EXISTE NÃO BASTA".

Carlos Drumond de Andrade.

Mundo Julia





O mundo tal como é para mim não basta.
E nem sou poeta. Mas lá a minha maneira eu faço arte.
Eu canto, me visto e fico nua com esmalte.
Por isso invento, me reinvento e tento recriá-lo

Esse verso é tolo mas é verdadeiro
Eu tento colori-lo e não entendo porque do céu não caem
chuvas de brilhinhos.
O mundo tal como é pra mim não basta
O mundo, lá dentro do meu é multicor e os superegos inexistentes se visitam
O meu mundo é tal como ele é, em si, tudo maravilha, mesmo com a dor da existência
Mesmo com amores perdidos, mesmo com a falta de não sei de quê, mesmo com medos e reticências. Meu mundo é cheio de dramáticas almodovarianas, que sou eu em muitas
Que sou eu louca, pouco comportada mas não menos romântica.
Meu mundo tem muita energia e emoção.
Sem isso eu não seria eu, nem sei dizer bem como...

por Julia Porto

O Movimento do Mundo.



É imprescindível que alguém esteja atento ao movimento do mundo. É imprescindível que alguém registre esse movimento na forma de uma poesia vital, com densidade suficiente para traduzir, de alguma forma, essa coisa fugidia que é a vida, essa coisa complicada que é o mundo. Não sei até que ponto a poesia traduz o mundo ou até que ponto ela forja um mundo outro. São questões tão antigas, mas é preciso repropô-las sempre. O poeta é aquele que não perde jamais a capacidade de espantar-se com a existência das coisas do mundo? Façamos uma meditação sobre a poesia. O poeta talvez seja aquele que, passado o primeiro espanto, reveste a si mesmo de uma retidão necessária ao exaustivo ofício de dissecar as coisas do mundo.



E como se disseca um mundo? Como separar o mundo em partes, como olhar para cada uma dessas partes separadamente? É necessário que alguém, com muita coragem, diga sobre o mundo aquilo que deve ser dito. E afinal, o que é que deve ser dito? Não se sabe. Cada qual deve descobrir dentro de si uma voz que lhe ensine quais as coisas a dizer sobre o mundo e como dizê-las – uma voz que lhe guie através desse caminho difícil. O mundo é como uma máquina voraz, que abriga coisas tão delicadas. A vida: que é apenas uma gelatina frágil. A vida, que é uma coisa forte, mas que também perece sobre o pontiagudo do mundo.



O poeta pode fechar os olhos para a morte, mas ela é onipresente na poesia. Porque o traço distintivo mais forte das coisas do mundo é o transitório. Estar, e logo depois não estar mais. Ser, e logo depois esfumar-se. Isso não é doloroso? Deve ser, para que se possa sentir o mundo em toda a sua beleza. Esse é o pathós do mundo – as coisas que o povoam não são duráveis. Sabe-se que o mundo é transformação. Por estar farto das transformações do mundo, o ser humano inventou o eterno? A Arte é apaixonada pelo eterno. Mas se vê a toda hora confrontada com o transitório. Sob os pilares desse conflito essencial, construiu-se Arte no Ocidente, desde os antigos. Nietzsche reivindicava uma Arte que rejeitasse a perene discordância entre eterno e transitório, forma e aparência. Uma prática artística baseada no próprio pathós da mutação. Uma Arte de celebração do transitório e de afirmação alegre e incondicional da vida da forma tal como ela se apresenta: quebradiça, dolorosa, múltipla, inconstante e sem sentido. É possível praticar uma poesia que celebre, com alegria, a contínua transformação e a efemeridade das coisas do mundo?



Mas há uma incomunicabilidade. A dificuldade de traduzir a contínua transformação do mundo através da linguagem será o maior desafio para a poesia. A máquina do mundo é hermética e não se abre a qualquer primeira tentativa. Se entre a linguagem e o mundo existe um abismo, então o poeta será aquele que, solitária e laboriosamente, fabrica uma ponte, muito frágil, muito vacilante – um canal que permita traduzir o movimento cego da máquina em linguagem humana. E não será permitido a ele utilizar-se de material alheio – de formas, conceitos, idéias, concepções, modos de julgar e perceber as coisas do mundo que não forem dele próprio. O poeta precisa fabricar o próprio material. Ainda assim, ele será aquele que trabalha sobre a constante ameaça de queda para dentro desse abismo primitivo onde a linguagem não se faz. Um abismo úmido, original, de onde ele mesmo saiu. Apesar de tudo, ele se esforça nesse trabalho ingrato de fabricar uma ponte com o próprio corpo – pois o material adequado para a construção da ponte – da poesia - é aquele que o próprio corpo do poeta fornece: seu susto, seu espanto, seu gozo, seus espasmos, sua dor intolerável de saber-se finito, sua triunfal Alegria de fazer parte, mesmo que por instantes, do infinito movimento do mundo e de poder tocar e degustar as coisas que o mundo tão generosamente lhe oferece.


Aqui, uma completa lição de poesia. A fantástica abertura da máquina do mundo ao poeta e a incompreensível e absurda recusa deste em recebê-la.